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O fim da festa dos relatórios de sustentabilidade

  • Foto do escritor: Adriano Augústto
    Adriano Augústto
  • 4 de jun.
  • 7 min de leitura

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) acaba de dar um passo que poucos esperavam. Depois de anos de preparação para alinhar o mercado brasileiro aos padrões internacionais de reporte de sustentabilidade do ISSB, a autarquia decidiu revogar a obrigatoriedade da divulgação das informações financeiras relacionadas à sustentabilidade para as companhias abertas. O que antes se tornaria obrigatório a partir de 2026 volta a ser facultativo. As empresas poderão adotar os padrões IFRS S1 e S2 de forma voluntária, seguindo a lógica do “pratique ou explique”.


A decisão gerou reações imediatas entre investidores, profissionais de sustentabilidade e especialistas em governança corporativa. Afinal, depois de anos de consultas públicas, investimentos em capacitação, adequação de processos e preparação das empresas, por que voltar atrás justamente quando a regra entraria em vigor?


A justificativa da CVM é que a mudança busca conferir maior flexibilidade ao mercado, permitindo que cada empresa avalie a pertinência da adoção desses relatórios de acordo com sua realidade e suas necessidades. Na visão do regulador, a decisão fortalece o diálogo com os participantes do mercado e preserva a autonomia das companhias para decidir quais informações divulgar.


Sim, é um retrocesso


Dito isso, é importante deixar claro: a decisão representa, sim, um retrocesso. A transparência sempre foi um dos pilares da boa governança corporativa. Os relatórios de sustentabilidade surgiram para dar visibilidade a temas que passaram a influenciar diretamente a geração de valor das empresas, como mudanças climáticas, gestão de recursos naturais, direitos humanos e governança.


Enquanto o mundo avança na integração entre sustentabilidade e finanças por meio de iniciativas como ISSB, IFRS S1/S2 e CSRD, a decisão brasileira parece caminhar na direção oposta. Mas talvez a discussão mais relevante não seja sobre quantos relatórios deixaremos de produzir. Talvez seja necessário fazer algumas perguntas mais incômodas.


Se a sustentabilidade é realmente estratégica, ela depende de uma obrigação regulatória para ser reportada?


E os relatórios de sustentabilidade estavam, de fato, cumprindo o papel para o qual foram criados?


Quando a ferramenta virou o objetivo


Originalmente, os relatórios de sustentabilidade nasceram como ferramentas de gestão. Sua função era ajudar empresas a compreender impactos, identificar riscos, definir prioridades, estabelecer metas e prestar contas sobre sua evolução. Mas, em algum momento da trajetória, a lógica se inverteu. Formou-se uma verdadeira indústria dos relatórios de sustentabilidade. Consultorias, softwares, auditorias e equipes internas passaram a dedicar cada vez mais tempo à produção de documentos cada vez mais sofisticados. Não há nada de errado nisso. Pelo contrário. Grande parte desse movimento contribuiu para profissionalizar a agenda ESG e aumentar o nível de transparência das organizações. O problema surgiu quando a ferramenta começou a ser confundida com o próprio objetivo.


Conheço empresas que dedicam quatro ou cinco meses do ano à produção do relatório de sustentabilidade e não dedicam uma semana para discutir como a economia circular pode reduzir custos operacionais. Já participei de projetos em que dezenas de profissionais estavam mobilizados para responder questionários de ratings ESG enquanto temas como adaptação climática, inovação em produtos ou desenvolvimento de novos negócios permaneciam sem patrocínio interno.


Evidentemente, isso não significa que os relatórios sejam inúteis. O problema é quando a organização passa a dedicar mais energia para reportar a transformação do que para promover a transformação em si. Mas uma pergunta raramente era feita: quem estava usando essas informações para tomar decisões? Quantos relatórios foram efetivamente lidos por conselhos de administração? Quantos influenciaram decisões de investimento? Quantos orientaram mudanças estratégicas? Quantos serviram para redefinir produtos, processos ou modelos de negócio? E talvez a pergunta mais desconfortável de todas:


Quantos relatórios foram produzidos apenas para serem publicados?


Em muitos casos, os relatórios deixaram de ser instrumentos de gestão para se tornarem instrumentos de comunicação. A lógica da transformação foi gradualmente substituída pela lógica do disclosure. O foco passou a ser menos sobre mudar a realidade da empresa e mais sobre demonstrar ao mercado que a empresa estava fazendo algo. Não por acaso, a discussão sobre sustentabilidade passou a girar cada vez mais em torno do que era reportado, e cada vez menos em torno do que era efetivamente transformado. Assim, a retirada da obrigatoriedade dos relatórios pela CVM esta nos obrigando a revisitar uma questão que ficou esquecida durante muito tempo:


Os relatórios estavam ajudando as empresas a se tornarem mais sustentáveis ou estávamos apenas nos tornando cada vez melhores em produzir relatórios sobre sustentabilidade?


Porque, se a segunda alternativa estiver mais próxima da realidade, o impacto mais profundo desse movimento não esta nos documentos que deixarão de ser publicados. Esta na forma como passamos a enxergar o próprio papel das áreas de sustentabilidade e dos profissionais que atuam nelas.


Quando o profissional de sustentabilidade virou gestor de relatórios


Se os relatórios passaram a ocupar o centro da agenda, não é surpresa que isso também tenha transformado o perfil das áreas de sustentabilidade dentro das empresas. Uma das consequências mais profundas da era dos relatórios tenha sido a transformação do próprio perfil do profissional de sustentabilidade. Com o avanço dos frameworks, dos ratings ESG e das exigências regulatórias, o profissional de sustentabilidade tornou-se cada vez mais especialista em indicadores, auditorias, controles, evidências, metodologias de reporte e gestão de riscos. Essa evolução trouxe ganhos importantes de credibilidade e governança. Mas também deslocou o centro de gravidade da profissão.


Em muitas empresas, o profissional de sustentabilidade passou a gastar mais tempo discutindo metodologias de cálculo do que modelos de negócio. Mais tempo respondendo questionários do que desenhando soluções. Mais tempo organizando evidências do que liderando transformações. Enquanto isso, temas como inovação, desenvolvimento de novos produtos, eficiência operacional, economia circular, adaptação climática e novos modelos de negócio passaram a receber menos atenção.


Pouco a pouco, a sustentabilidade foi sendo associada ao compliance, à gestão de riscos, ao reporte e à prestação de contas. E foi se afastando justamente dos espaços onde as decisões estratégicas são tomadas. A consequência é que muitos profissionais passaram a discutir como reportar melhor os impactos da empresa, quando talvez devessem estar discutindo como reduzi-los. Passaram a dedicar mais tempo à elaboração de indicadores do que à construção das soluções que esses indicadores deveriam medir.


Talvez por isso tantas lideranças ainda enxerguem a sustentabilidade como um centro de custo, uma obrigação regulatória ou uma ferramenta reputacional. Quando a sustentabilidade se distancia do negócio, ela perde capacidade de gerar valor. O paradoxo é evidente: na tentativa de tornar a sustentabilidade mais profissional, corremos o risco de transformá-la em uma atividade burocrática. E talvez a próxima fase dessa agenda exija justamente o movimento contrário: menos tempo dedicado a reportar o que aconteceu e mais tempo dedicado a construir o que ainda precisa acontecer.


O que acontece quando a festa acaba?


Durante muitos anos, a sustentabilidade corporativa foi impulsionada principalmente por pressões externas: regulações, investidores, rankings e mecanismos de reporte.

Isso ajudou a colocar temas ambientais, sociais e de governança na pauta dos conselhos e das lideranças empresariais. Mas também criou uma armadilha. Em muitas organizações, a sustentabilidade passou a justificar sua existência principalmente por fatores externos: atender uma exigência regulatória, melhorar uma nota em um índice, responder a uma demanda de investidores ou fortalecer a reputação da marca. Enquanto isso, uma pergunta fundamental acabou ficando em segundo plano:


Como a sustentabilidade ajuda a empresa a ser mais competitiva?


Acredito que essa seja justamente a pergunta que o fim da obrigatoriedade dos relatórios nos obriga a revisitar. Quando conectada ao negócio, a sustentabilidade reduz custos, fortalece a gestão de riscos, impulsiona a inovação, abre novos mercados e aumenta a resiliência da organização. Nesse contexto, o relatório continua sendo importante. Mas passa a ocupar o lugar que deveria ocupar: o de consequência, e não o de protagonista.


Os desafios das próximas décadas: adaptação climática, segurança hídrica, economia circular e transição energética, não serão resolvidos por meio de indicadores, questionários ou relatórios cada vez mais sofisticados. Eles exigirão inovação, investimentos e, sobretudo, transformação dos modelos de negócio. Exigirão que a sustentabilidade deixe de ser apenas um tema de reporte para voltar a ocupar um papel estratégico nas organizações. E exigirão que os profissionais da área recuperem uma função que, em muitos casos, foi sendo substituída pela lógica do compliance e do disclosure: a de conectar desafios socioambientais às oportunidades de negócio, transformando riscos em inovação, eficiência, competitividade e geração de valor.


Por isso, espero que o futuro da sustentabilidade corporativa seja menos sobre explicar o que a empresa fez no último ano e mais sobre ajudar a construir o que ela precisará se tornar nos próximos dez. Se isso acontecer, a retirada da obrigatoriedade dos relatórios continuará sendo um retrocesso regulatório. Mas poderá produzir um efeito colateral positivo. Obrigará muitas empresas e profissionais a responder uma pergunta que ficou adormecida durante tempo demais:


A sustentabilidade existe para produzir relatórios ou para transformar negócios?


Talvez o fim da festa seja uma boa notícia


Há alguns anos, ganhou notoriedade a ideia de que a “festa ESG” havia acabado. O argumento era que o excesso de promessas, expectativas e narrativas havia cedido espaço a uma fase mais pragmática e orientada à geração de resultados. Talvez estejamos assistindo agora ao fim de uma festa menor, mas igualmente reveladora: a festa dos relatórios de sustentabilidade.


Continuo acreditando que transparência é fundamental. Empresas devem prestar contas sobre seus impactos, riscos, metas e resultados. Investidores e a sociedade continuarão demandando essas informações.Tampouco acredito que a decisão da CVM tenha sido acertada. Em um momento em que grande parte do mundo avança na integração entre sustentabilidade e finanças, reduzir exigências de reporte parece caminhar na direção errada.


Mas talvez exista uma reflexão mais profunda escondida por trás desse episódio.

Durante anos, a agenda de sustentabilidade corporativa foi se estruturando ao redor de frameworks, indicadores, ratings, auditorias e relatórios. Tudo isso trouxe avanços importantes. Mas também nos levou a uma situação curiosa: em muitos casos, passamos a medir a maturidade da sustentabilidade pela qualidade do relatório, e não pela capacidade da empresa de transformar sua realidade. Os relatórios continuarão existindo. Empresas maduras continuarão reportando e investidores continuarão demandando transparência.


O que pode mudar é a forma como enxergamos a própria agenda de sustentabilidade. Menos centrada na produção de relatórios e mais orientada à transformação dos negócios. Menos focada apenas em conformidade e mais conectada à inovação, à competitividade e à geração de valor. Afinal, o problema nunca foram os relatórios. O problema começou quando passamos a confundir reporte com transformação e a acreditar que produzir um relatório de sustentabilidade era o mesmo que fazer sustentabilidade. Durante anos perguntamos quais empresas tinham os melhores relatórios de sustentabilidade. Talvez a pergunta mais importante para a próxima década seja outra:


Quais empresas conseguiram gerar mais sustentabilidade sem precisar transformar isso em um relatório de 200 páginas?

 
 
 

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