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  • pimentadriano

As empresas vão se tornar neutras em carbono, mas será que existem tecnologias e árvores suficientes

Desde que a onda do ESG - Environmental, Social and Governance chegou ao mercado financeiro, as empresas têm sido cada vez mais pressionadas a se posicionarem sobre o que estão fazendo com relação aos aspectos ambientais, sociais e de governança, de seus negócios. Nesse caminho, dentro da perspectiva ambiental, um ponto comum entre muitas organizações, têm sido o de anunciarem a meta Carbono Neutro para os próximos anos.


Braskem, Ifood, Nestlé e Unilever são apenas alguns exemplos de empresas que já assumiram o compromisso de neutralizarem as pegadas de carbono das suas operações. E provavelmente, nos próximos meses ainda veremos várias outras organizações, seguindo o mesmo caminho e assumindo compromissos similares.


Se por um lado, podemos considerar esse movimento como algo positivo, e que ajuda a impulsionar a agenda das mudanças climáticas para além dos governos, por outro é preciso entender o quão desafiador de fato são essas metas, e se é possível mesmo que todas empresas alcancem esse mesmo objetivo de forma simultânea.


Primeiramente, quando pensamos nesse desafio do Carbono Neutro, existem dois caminhos possíveis: a redução das emissões dos gases de efeito estufa onde é possível, e a neutralização das emissões onde não é possível reduzir. Vejamos então isso com mais detalhes.


Para conseguirem medir os resultados desses compromissos, a maioria das empresas hoje trabalham com os inventários de emissões de acordo com o GHG Protocol. Segundo esse framework, as emissões de uma empresa são divididas em 3 escopos: Escopo 1 são as emissões diretas das suas operações e frotas próprias de veículos; Escopo 2 são as emissões indiretas associadas ao consumo de energia e Escopo 3 são as emissões indiretas de serviços de terceiros.


Para reduzirem as emissões de escopo 1, basicamente o que as indústrias têm que fazer é trocar o consumo de combustíveis fósseis, por combustíveis não fósseis. Um exemplo clássico é a troca de uma caldeira de gás natural ou diesel, por uma caldeira de biomassa. Há alguns anos atrás, quando trabalhei na Unilever, discutíamos a viabilidade dessa troca para umas das maiores fábricas da companhia. Da parte financeira, ainda que o payback não fosse dos mais atrativos, a conta fechava. O desafio nesse caso estava na logística e nos volumes de biomassa: a previsão é que por dia seriam necessários algumas dezenas de caminhões de bagaço de cana, para conseguir atender a demanda de vapor da fábrica. Nesse caso, ainda que as emissões diretas do Escopo 1 fossem reduzidas, as emissões indiretas do escopo 3 aumentariam consideravelmente, uma vez que os caminhões no Brasil são movidos a diesel. Esse exemplo nos mostra, como a questão muitas vezes é complexa e do tamanho do desafio para se tornar Carbono Neutro.


Sobre o escopo 2, as indústrias hoje no Brasil, partem de uma posição privilegiada, uma vez que mais de 80% da matriz energética brasileira é proveniente das chamadas fontes limpas. Para atenderem suas metas, o que muitas empresas procuram fazer então é comprar energia com certificados, que garantam que 100% das suas energias sejam provenientes de fontes renováveis. A questão aqui, é que ainda que o país esteja crescendo seus parques eólicos e solares, será que as ofertas de energias limpas e investimentos nesse setor, conseguirão crescer no mesmo ritmo, que a demanda por energias renováveis aumenta? Com certeza, esse movimento ajuda a pressionar o crescimento das energias limpas, mas parques eólicos e solares também não se constroem do dia para noite e a construção de uma matriz energética 100% renovável pode levar um certo tempo.


Por fim, chegamos ao escopo 3, que em termos de redução de emissões, com certeza é o que se mostra mais desafiador. Estamos falando aqui prioritariamente das emissões de transportes, em uma país totalmente dependente do modal rodoviário, com uma frota de veículos antiga e fortemente dependente do diesel. Somando-se tudo isso, o resultado que temos são altos índices de emissões nesse escopo! Como alternativas, podemos pensar na expansão dos modais ferroviário e da cabotagem, e no aumento do uso de veículos movidos a energias limpas. Porém, para expansão dos modais, temos o desafio da criação de politicas públicas que incentivem pouco a pouco essa migração. E na parte dos veículos, apesar dos avanços de veículos elétricos, a etanol e hidrogênio, muitas vezes essas tecnologias têm sido prioritariamente testadas em veículos a passeio. Ainda que já existam iniciativas e pilotos interessantes dessas tecnologias também para caminhões, essa também não é uma realidade que deve se alterar tão rapidamente no curto prazo.

Dessa forma, como vimos, ainda que seja possível reduzir bastante as emissões, é muito difícil que as empresas consigam de fato zerar as suas emissões, e então a questão da neutralização se mostra fundamental. O ponto é que hoje quando falamos em neutralização, essencialmente estamos falando do plantio de arvores e da compra de créditos de carbono. O que novamente surge aqui é a relação da oferta e demanda! Com tantas empresas falando em neutralizar carbono, será que teremos de fato organizações e espaço suficiente, para plantar tantas árvores e mitigar todo esse impacto? Vamos aguardar os próximos relatórios de sustentabilidade, para ver como a temática avança na prática...

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